É só outro blogue – Quem é, quem foi, na FC&F

Fonte: É só outro blogue

Começarei as entrevistas com autores identificados com a Segunda Onda com Simone Saueressig. Simone, mesmo tendo uma peridiocidade de publicações bastante razoável, é, misteriosamente, desconhecida do Fandom atual, esse que vem se formando de forma paulatina, acompanhando a expansão de mercado da Terceira Onda. Talvez essa entrevista ajude-a a se tornar mais visível, talvez não. Para quem não a conhece, apresento-lhes uma autora de técnica narrativa refinada e muita criatividade.

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É só outro blogue: Você escreve obras tanto para adultos quanto para crianças e jovens. Há mesmo alguma diferença entre escrever para adultos e escrever para crianças/jovens?

Simone: Creio que há uma diferença de abordagem, o que significa uma diferença de linguagem. Mas não mais do que isso. Existem alguns autores que acreditam que existem temas “tabu” para a literatura voltada ao público infantil, mas eu acho que não. A dificuldade maior está na abordagem e no próprio autor. Alguns autores se sentem mais a vontade para falar de temas como sexo e violência e outros não. O fórum interno de cada um conta muito mais do que a gente pensa.

É só outro blogue: Suas obras de Fantasia são marcadas pela preocupação em utilizar elementos da mitologia indígena brasileira. Mas vivemos numa “aldeia global”, para citar a frase que já virou clichê de Marshall McLuhan. No que uma escritora brasileira de Fantasia difere de, digamos, uma escritora escocesa de Fantasia?

Simone: A diferença deveria ser a matéria-prima do imaginário e a maneira como uma cultura lida com isso. A cultura massificada dos nossos dias tem uma tendência a ficar na superfície das coisas e esquece que os elementos da mitologia falam diretamente ao simbólico, ao subconsciente das pessoas. Pouco antes de eu começar a escrever, muita gente se preocupava com a “invasão cultural norte-americana”: era uma discussão muito viva e abrangente, com críticas voando de lado a lado. Eu vivi uma situação polarizada: de um lado amigos politizados que criticavam minhas leituras (basicamente FC e Fantasia, o que na época significava ler autores norte americanos e europeus) e de outro umas poucas pessoas que compartilhavam comigo a paixão por esse tipo de histórias (que eram poucas e estavam distantes). Encontrei o equilíbrio quando percebi que poderia escrever fantasia usando os elementos do meu folclore – o que é exatamente a mesma coisa que a hipotética escritora escocesa da pergunta faria com os elementos do folclore dela. A grande diferença é que depois da abertura política e a chegada da internet, a discussão em torno da invasão cultural foi se esvaziando e praticamente desapareceu. Então quase não existe mais resistência, porque se antes a frase de Marshall McLuhan era quase uma metáfora, hoje ela não é mais. A rede aproxima as pessoas, mantém laços afetivos, promove encontros que antes não eram possíveis. Por isso mesmo é tão importante que recuperemos a discussão sobre a invasão cultural e a mantenhamos viva. Isso não quer dizer ignorar as mitologias que chegam de fora, mas ter claro que elas são outra leitura do imaginário humano, que não o meu, enquanto brasileira e sul-americana – mas aí surge outra discussão sobre quais os símbolos com os quais nós nos identificamos: se com o Saci-Pererê ou com o gnomo que oculta seu tesouro no fim do arco-íris e qual a legitimidade de eu usar um símbolo com o qual eu não me identifico, porque a cultura urbana e globalizada me deu outros elementos que os considerados originalmente como brasileiros e estes, muitas vezes, são mais alienígenas, no sentido que não os reconheço como meus, do que os estrangeiros que povoaram os filmes e livros que consumi e que me formaram como ser humano. Toda vez que lidamos com um símbolo cultural, estamos lidando com valores de uma cultura especifica. Então é muito importante que mantenhamos vivas as diferenças culturais, não como uma fronteira que separe, mas como forma de enriquecer o patrimônio imaginário humano. Por isso é  importante manter vivos os seus elementos mitológicos e folclóricos: para não perder a variedade que nos torna únicos na Natureza. Talvez a principal diferença entre uma escritora de Fantasia brasileira e uma escocesa, é que a escocesa tem tão arraigada a importância de manter a sua identidade cultural, que ela não vai se preocupar com isso – é parte do seu trabalho. Mas de uma maneira geral, a escritora brasileira terá de compreender o processo e sua importância, terá de se convencer disso, porque ela foi bombardeada durante muito tempo com objetos culturais onde são exaltados e dados a conhecer figuras mitológicas de outras culturas. Ela já está acostumada a guerreiros medievais, sabe – ou pensa que sabe – o que são. Ela já se apaixonou por dragões e tem claras as paisagens das histórias de Fantasia europeias. De uma maneira geral, conhece as dificuldades climáticas e os desafios do relevo. Em que história de Fantasia não neva? Não tem um pântano com guerreiros afogados? Que graça uma história de Fantasia sem altas montanhas para transpor? Tudo isso faz parte da paisagem europeia, e já foi tão explorado por esse tipo de literatura que qualquer leitor médio saberia descrever medianamente um cenário de história de Fantasia. Mas quando a gente atravessa o Atlântico, aparece o desafio. De repente não há mais guerreiros medievais, os monstros mudam, o cenário muda. As regras mudam. E além de você ter de pesquisar tudo isso, ainda por cima tem de descrever de uma maneira atrativa para um público que, normalmente, não sabe do que se está falando. Então a escritora brasileira terá de se convencer de fato de que o sua matéria-prima é tão importante quanto a da escocesa – que já está convencida disso – e esta é uma diferença muito importante.

É só outro blogue: Como é o seu método de trabalho? Quando se senta para escrever, você já tem toda a história planejada ou vai descobrindo na medida em que escreve? Como você se inspira? Quem ou quais são as suas influências?

Simone: Normalmente, eu escrevo para descobrir a história. Quero saber o que vai acontecer com algum personagem. Eventualmente tenho uma “cena” que gostaria de escrever e para ela funcionar, é preciso criar um arcabouço de eventos onde ela possa ser inserida com a dramaticidade que eu a imaginei. “A Fortaleza de Cristal”, por exemplo, foi escrito somente para por um personagem de joelhos (pura crueldade, já me disseram!). Contudo, de vez em quando escrevo uma história cujo final já imaginei, como o inédito “Os Sóis da América”. Quando isso acontece, costuma ser um sufoco, porque a partir do momento em que eu sei o final da história ela perde o interesse para mim. “Os Sóis da América” não perdeu o interesse porque mesmo sabendo o final da história eu precisava resolver tantas coisas na aventura do personagem principal que fiquei ligada até a última linha. O que não significa que o texto está pronto, longe disso. Aí é que começa o trabalho mesmo, porque a primeira versão costuma ser pura diversão. Depois é que o vou trabalhar de verdade.
É complicado falar em “método”. Depende do texto. Se for uma história de Fantasia sem um contrato especifico com o imaginário brasileiro ou sul americano, é mais fácil, como em “A Máquina Fantabulástica”. O próprio “O Jogo no Tabuleiro”, que lida com elementos tradicionais das histórias de Fantasia (tem dragões, montanhas, magos e guerreiros), foi relativamente fácil de ser escrito, embora trabalhoso. “O pitbull é manso, mas o dono dele já mordeu uns quantos…” fluiu muito bem, quando não toquei no texto depois de pronto.  Mas quando estou focada em alguma das nossas tradições, o texto é escrito mais ou menos junto com a pesquisa. Reconheço que sou preguiçosa. As coisas facilmente perdem o interesse para mim, então dificilmente eu faço primeiro a pesquisa, para depois escrever. Acho que só fiz isso com “O Palácio de Ifê” e “A Estrela de Iemanjá”, que têm como tema a cultura afro-brasileira.
Quanto à inspiração, bem que eu gostaria de dizer “como eu me inspiro”, porque daí ia ficar fácil repetir o processo toda vez que precisar! A única vez em que a inspiração veio de verdade, aquela que a gente tem como ideal, foi quando escrevi “A Máquina Fantabulástica”, inspirada no maluco do elevador do prédio onde moro. Normalmente as histórias partem de uma ideia vaga: “eu gostaria de escrever algo feito aquele livro, com um tema parecido ou uma voz textual semelhante”. Mas é claro que dificilmente algo me inspirará mais do que um filme ruim. Quanto pior o filme, mais ele me desperta indagações e controvérsias interiores. Ainda estou me recuperando de “O último mestre do ar”.
E por fim, as influências, são múltiplas: Asimov, Bradbury, Tolkien, Lewis, Leblanc, King, Poe, Lovecraft, o que vou lendo no momento… é difícil de dizer. No fundo eu acho que todo autor que a gente lê contribui, em certa medida, no texto que vamos escrever. Mas sem dúvida, Tolkien, Poe e Asimov foram os que contribuíram na minha paixão pela literatura fantástica. Sem eles, eu não teria lido todos os demais. E antes todos eles, Lewis e suas Crônicas de Nárnia. Sem Lewis, eu sequer teria me tornado uma leitora.

É só outro blogue: Olhando em retrospecto, o que você diria para um jovem escritor brasileiro de Fantasia não fazer?

Simone: Não copiar – o que é muito difícil. Mesmo “A noite da grande magia branca”, o primeiro livro que editei buscando uma Fantasia com elementos brasileiros, tem tanta influência de Tolkien que é quase impossível não lê-lo nas entrelinhas – e isso que foi uma luta constante. Quando eu digo “não copiar”, não estou acusando ninguém de plágio, notem bem. Não estou dizendo que este ou aquele autor copia realmente seus livros e suas histórias de clássicos. Eles existem, mas felizmente são em menor número. Contudo, estaria bem que no lugar de tanto feiticeiro, bruxa e guerreiro medieval, pudéssemos contar com bandeirantes, pais de santo e jagunços, por exemplo. Outra coisa que está acontecendo com esses autores é que eles ficam olhando muito para o próprio umbigo. O sujeito escreve um livro e vende (que bom!)– e se acha o máximo. Em vez de ele partir para a próxima, pensar “tá, e agora?”, ele fica inflando o ego com números e resenhas elogiosas. Quando eu comecei a colocar meus contos nos fanzines, descobri que estava dando a cara à tapa. As críticas nem sempre eram boas. Claro que ninguém gosta de ser criticado, mas é ela que ensina. A primeira coisa que se faz hoje, quando isso acontece, é revidar como se fosse uma coisa pessoal. A crítica é, sobretudo, o olhar do outro, e o “outro” é o leitor, a outra ponta da corrente. Sem ele não existe Literatura.
E também tem o básico: se estiver começando, não o faça com uma saga de cinco volumes de 700 páginas cada um!  A gente precisa aprender a ter calma. Se quiser escrever a tal da saga, o melhor é deixá-la num cantinho por um ano ou dois, depois de pronta. Quando o escritor a pegar de novo verá se ela de fato merece tudo isso ou se precisa ser recortada. Em todo o caso, se o autor pensar que é isso mesmo o que ele quer, então que vá em frente, mesmo que o mundo inteiro diga que não. Muitas vezes os editores erram de maneira tão absurda que a gente fica pensando como um sujeito como aquele que disse que Kipling não sabia escrever, por exemplo, podia estar à frente de uma editora. O caso é que o que o editor diz pode ser importante, mas aquilo em que o autor acredita é mais. Kipling, afinal de contas, depois de receber tão miserável crítica, foi o primeiro autor inglês agraciado com o Nobel de Literatura, em 1907 e até hoje foi o mais jovem.
Em todo o caso Kipling não começou com histórias longas, não mesmo!

É só outro blogue: Dentre os escritores brasileiros de ficção de gênero (Fantasia, Terror, Ficção Científica, etc.), quais os que mais lhe chamam a atenção?

Simone: Acho o Braulio Tavares brilhante e gosto muito do Roberto Causo. Acabei de ler o lançamento de Christopher Kastensmidt pela Devir, e achei muito legal a proposta. É como se fosse um diálogo travado através dos livros: eu, enquanto brasileira, li e consumi FC e Fantasia americana. Ele, que é norte-americano radicado no Brasil, me oferece uma história do gênero com temas brasileiros, em terras brasileiras. Também gosto do Flávio Medeiros Jr. e dos contos da Maria Lúcia Victor Barbosa, dos livros que li de Aline Bittencourt e Flávia Muniz.  E eu jamais deixaria Marina Colasanti de fora de uma lista de autores do gênero aqui do Brasil. Ninguém escreve contos de fadas como ela (mesmo quando as fadas não aparecem explicitamente).

Saint-Clair Stockler colaborou nesta entrevista.

Simone Saueressig

Este espaço abriga o trabalho literário da escritora gaúcha Simone Saueressig. Aqui você encontra informações sobre seus livros e bibliografia além de informações sobre o ciclo da Terra da Magia, ou seja: A noite da grande magia branca, A Fortaleza de Cristal e aurum Domini – O ouro das Missões.

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