De novo em casa

Todos os anos isso acontece:

Vou a uma escola e me sinto em casa.

As turmas com quem converso não apenas leram os meus livros e gostaram. Leram e formaram uma opinião. Leram e me puseram à prova. Leram e me confrontaram com o que não gostaram e com os limites do meu trabalho. E leram os autores que me tornaram uma autora. Têm as suas histórias preferidas. A gente se olha, olho no olho, e sabe que faz parte de uma espécie de confraria que não é secreta, mas tem senha.

Este ano, isso me aconteceu na EMEF Ana Íris do Amaral, em Porto Alegre. Estava falando com os alunos do projeto Adote um Escritor sobre os meus autores preferidos e soltei um quase tímido “gosto muito de Edgar Alan Poe”. Tímido porque é comum eu me deparar com turmas que nunca ouviram falar dele.

Mas essa galera tinha ouvido sim. Mais do que ouviu, leu. Curtiu “O Gato Preto”. Ama “A Máscara da Morte Rubra” (alguns pularam na cadeira quando eu disse que esse era o meu conto predileto do autor norte-americano).

Essa galera lê. Lê de tudo. O que é maravilhoso, mas não vem do nada.

Acontece que a EMEF Ana Íris tem um time. É um grupo composto de professores, equipe diretiva e colaboradores, que acredita no que faz. Que tem um projeto em mente. Que não se espanta, não se avexa, não se mixa. É um time com o objetivo claro de que a educação abre portas, dá oportunidades, forma seres humanos.

E, junto a isso, misturado e tramado, forma leitores.

A gente percebe só de olhar para a escola colorida, limpa, com alunos que participam e professores que se engajam. O entorno de vegetação densa é uma muralha que protege e anima.Traz para junto de todos as flores da Primavera, os pássaros do Verão. Afasta o horizonte duvidoso e abraça a infância como se a pudesse guardar. Como se todos fossem seus filhos.

E não somos?

No Adote um Escritor da Ana Íris, a Literatura não ficou “apenas” na aula de Português. Não ficou “apenas” na biblioteca bonita e colorida, cenário para a festa da imaginação. No Adote um Escritor da Ana Íris, a Literatura ganhou a sala de artes, o livro virou objeto de criação, espaço para a homenagem aos que partiram, janela para novos lugares, descoberta. Dos limites, o desafio de ultrapassá-los e redescobrir-se: redescobrir-se artista, expressão e criatura humana.

Na  EMEF Ana Íris do Amaral, o Adote um Escritor mostrou, mais uma vez, a que veio. E demonstrou mais uma vez que não há estatística que se mantenha de pé, quando há vontade e espaço para o aprendizado. Há, “apenas”, pessoas. E cada um de nós somos um horizonte aberto à transformação cotidiana.

Que nossos governantes saibam construir um caminho para que essa transformação seja para a criação de uma sociedade justa, onde todos tenhamos as mesmas oportunidades. Porque cada vez que alguém tira recursos da Educação afirmando que não há recurso para o demais, compromete o Futuro da Nação. Um Futuro que eu vi brilhante nos olhos, que ouvi vibrante nas vozes e que acreditei possível em cada leitor dessa escola.

Simone Saueressig

Este espaço abriga o trabalho literário da escritora gaúcha Simone Saueressig. Aqui você encontra informações sobre seus livros e bibliografia além de informações sobre o ciclo da Terra da Magia, ou seja: A noite da grande magia branca, A Fortaleza de Cristal e aurum Domini - O ouro das Missões.

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