A força da simplicidade

Eu estava muito curiosa para visitar a EEEF Nossa Senhora do Livramento, dentro do programa Lendo pra valer , da Câmara Rio-grandense do Livro, sobretudo por causa da cidade onde ela se localiza: Guaíba. Eu não conheço Guaíba, apenas fui até a orla, certa tarde em que fui passear de catamarã (foi um passeio e tanto!). Estava com a História do Rio Grande do Sul na cabeça, já que lá foi um dos principais redutos dos generais rebeldes às portas da Revolução Farroupilha. Mas a nossa carona foi nos levando, levando, além do centro, além da orla bonita, de onde se vê Porto Alegre e de onde se deve ter um amanhecer espetacular, com o Sol despontando sobre a zona sul da capital, sobre o estuário, que é rio, que é lago, que ninguém sabe o que é, o Guaíba.

E a cidade e a orla ficaram para trás. Cresceu, cinzenta e poderosa, a indústria de papel, a Celulose Rio-grandense, com suas chaminés que parecem as torres de alguma fortaleza cinzenta contra o céu azul. Ao lado dela, coladinha no muro, um pórtico de cores chamativas avisava: “Balenário Alegria”. “Será mesmo?” me perguntei, olhando o muro alto, cinzento e sisudo. O carro contornou a rótula e seguiu, ziguezagueando mais algum tempo até chegar ao nosso destino.

É uma escola simples, feita para acolher os estudantes das redondezas. É uma escola que dribla as dificuldades com criatividade e com fé no trabalho. Que já teve de dar a volta por cima, depois de episódios de vandalismo que chegaram às páginas do jornal. Tirando cenários e personagens de Menos do que um troco, o livro mais trabalhado pelos alunos, a Nossa Senhora do Livramento não apenas leu a história de Uélintom, mas parece disposta a tirar o melhor partido dos erros do personagem. Lá estavam autênticos representantes da ONG Alternativas, com camisetas e tudo. E lá estava um mural de anúncios de emprego – anúncios de verdade, que a professora pretende continuar a manter e atualizar, dando aos alunos que frequentam a escola não apenas estudo, mas oportunidades. Alternativas, em fim, coisa que necessitamos, sempre, todos nós.

Foi um bate-papo muito instigante, com perguntas sérias, interesse autêntico e a presença dos leitores, que também conheçaram aurum Domini – O ouro das Missões. Fui recebida com carinho e com trabalhos que revelam as grandes possibilidades quando se acredita na Literatura e se usa a criatividade. Foi mais um daqueles encontros que me fazem acreditar na força da Educação, uma força imensurável, que só precisa de duas coisas: equipe de professores engajados e alunos dispostos a ouvir. A Educação é o que nos iguala. A fé no amanhã é o que nos abre portas. Quando cada um faz a sua parte, as coisas boas acontecem. O que aconteceu de negativo fica para trás e a gente tem coragem e força de fazer o nosso melhor. Simplesmente assim.

Ah, e por certo: a História, senhores, somos nós quem a escrevemos.

 

Simone Saueressig

Este espaço abriga o trabalho literário da escritora gaúcha Simone Saueressig. Aqui você encontra informações sobre seus livros e bibliografia além de informações sobre o ciclo da Terra da Magia, ou seja: A noite da grande magia branca, A Fortaleza de Cristal e aurum Domini - O ouro das Missões.

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